(Baseado nos dados da TIC Domicílios 2023/2024)
Este relatório detalha o perfil dos usuários de lan houses e cyber cafés no Brasil, com base nos dados da pesquisa TIC Domicílios. Embora o acesso à internet tenha se massificado, principalmente via dispositivos móveis, os centros públicos de acesso pago ainda desempenham um papel crucial e muitas vezes subestimado.
É fundamental contextualizar essa relevância. Há uma década, quando a penetração da internet no país era de aproximadamente 15% (cerca de 30 milhões de pessoas), as lan houses representavam o principal meio de acesso para 60% desses usuários, ou seja, 18 milhões de brasileiros dependiam delas. Hoje, embora o percentual relativo tenha caído drasticamente, a "involução" em termos absolutos foi menos acentuada do que se imagina, mostrando a resiliência desses espaços.
Mais importante ainda é a análise qualitativa do acesso. Em um cenário onde a maioria dos brasileiros acessa a internet pelo celular, as limitações de uma tela pequena tornam-se um gargalo para atividades educacionais e profissionais. Este relatório argumenta que as lan houses sobrevivem não apenas como ponto de acesso, mas como um provedor de infraestrutura de qualidade — com telas grandes, periféricos adequados e ambiente focado — indispensável para milhões de cidadãos.
De acordo com a pesquisa, 7% do total de usuários de internet no Brasil acessam a rede por meio de centros públicos de acesso pago. Considerando o universo de 155 milhões de internautas (84% da população com 10+ anos), este percentual representa um contingente expressivo de aproximadamente 10,85 milhões de pessoas.
Este número, quando comparado ao pico de 18 milhões de usuários há uma década, demonstra que, embora a participação relativa das lan houses tenha diminuído, elas ainda atendem a uma base de usuários comparável em ordem de grandeza, evidenciando uma necessidade contínua por seus serviços.
A dependência de lan houses varia consideravelmente entre diferentes grupos, revelando recortes de vulnerabilidade e necessidade digital. Os dados abaixo mostram a proporção de usuários de internet que utilizaram centros de acesso pago nos últimos 3 meses.
| Categoria | Grupo | Uso (%) |
|---|---|---|
| Faixa Etária | 10 a 15 anos | 5% |
| 16 a 24 anos | 15% | |
| 25 a 34 anos | 7% | |
| 35 a 44 anos | 5% | |
| 45 a 59 anos | 3% | |
| 60 anos ou mais | 2% | |
| Renda Familiar | Até 1 SM | 5% |
| 1 a 2 SM | 8% | |
| 2 a 3 SM | 9% | |
| 3 a 5 SM | 11% | |
| Mais de 5 SM | 5% | |
| Escolaridade | Analfabeto/Até Fund. I | 2% |
| Fundamental II | 6% | |
| Ensino Médio | 9% | |
| Ensino Superior | 5% | |
| Região | Norte | 9% |
| Nordeste | 8% | |
| Sudeste | 6% | |
| Sul | 7% | |
| Centro-Oeste | 9% |
Os dados destacam claramente que jovens adultos (16-24 anos), pessoas com ensino médio e famílias da classe média baixa (3-5 SM) são os que mais dependem desses espaços.
Os motivos que levam milhões de brasileiros às lan houses vão muito além da simples falta de conexão. A principal razão é a busca por uma experiência de uso que o celular não pode oferecer.
A popularização da internet móvel mascarou uma faceta importante da exclusão digital: a exclusão qualitativa. Os dados mostram que as lan houses, longe de serem relíquias do passado, são um ecossistema de suporte vital para quase 11 milhões de brasileiros.
Este público, formado majoritariamente por jovens em formação, trabalhadores informais e cidadãos de regiões com infraestrutura deficiente, não busca apenas "estar online". Ele busca as condições necessárias para estudar, trabalhar e competir em pé de igualdade.
Ignorar o papel das lan houses é ignorar que, para milhões, a diferença entre uma tela de 5 e 24 polegadas é a diferença entre o consumo passivo de conteúdo e a produção ativa de conhecimento e renda. Portanto, qualquer política pública de inclusão digital deve ir além de medir a penetração da internet e começar a avaliar a qualidade e a adequação das ferramentas de acesso, reconhecendo esses espaços como pontos estratégicos para garantir uma cidadania digital plena e produtiva.